sexta-feira, 9 de dezembro de 2011


Saudade dizes tu. Saudade dizia também ele.
Juro que é nestes dias que gostava de saber o que é o amor e poder experimentá-lo. Vesti-lo no inverno e deixar de lado as roupas de verão, outono ou primavera. Usá-lo como luvas, meias, camisola de lã, calças de ganga e, quem sabe, lingerie.
Como deve ser bom comprar amor em lojas de roupa; ver uma de longe, correr a loja toda e não ver mais nenhuma, se não aquela, mais bonita, mais quente, mais colorida, mais berrante mesmo se os seus tons não atingem os fluorescentes e apenas as cores velhas que se usam nestes últimos invernos. Como deve ser bom experimentar e sentir que fomos a primeira pessoa a fazê-lo.
E tu sabes o que é o amor? Eu imagino-o quente, embora o sinta gelado; dá-me tanto frio quando lhe toco. E imagino-o também com as mãos grandes e compridas, magras de fome, onde paradoxalmente cabem as minhas (pouco femininas). O resto não consigo imaginar: só consigo ver-lhe as mãos.
Sabes quando o sentes que já não cabe em ti tanto (des)amor? sim, sabes. Eu sei que sabes.

sábado, 5 de novembro de 2011

Lumes e Saudade

Ora bem, da chuva. Gosto de a adivinhar ao lume. Logo desde pequeno me ensinaram a ver na lareira se ‘vem lá chuva’. Olho atentamente para o preto dos tijolos atrás das labaredas e vejo estrelas a brilhar, como se fossem formiguinhas luminosas no mais escuro e limpo céu de Inverno. Da chuva, gosto dela no Verão quando me bate a saudade. A saudade das mantas e meias grossas. A saudade das maçãs do rosto coradas de tão próximo estar do lume. Saudade da pele estalada e seca pelo calor excessivo a que me sujeito quando me sento no beirado da lareira.

Lume e saudade. Assim em modo de cliché posso dizer que são uma das misturas mais poderosas do mundo. Quente, ardente ou até explosiva. Simplesmente poderosa.
Se te sentares ao lume, comigo ou sem mim, vai iluminar esse teu armário com este conforto quentinho que é estar à lareira, com a família, com os amigos, a contar anedotas, a alcovitar, a comer, a beber, a ler um bom livro, a ver um bom filme ou simplesmente a pensar, ao som de uma bom música ou do teu bom silêncio.
Ai, a Saudade..
Sabes, para mim a saudade é das coisas mais bonitas e paradoxalmente a mais triste. Atenção que face a beleza da saudade apresento-te a sua tristeza, porque feia.. Ah, feia é que a saudade não é. Saudade, saudade, saudade. Saudade. Acho que estou apaixonado. Pela saudade. O prodígio da boa e bela Língua Portuguesa. Será que nas outras tantas línguas que por aí existem, naquelas em que não há tradução para saudade eles sabem o que significa? Pergunto-me, pergunto-te, será que eles por lá já a sentiram.

Que tristeza seria uma vida sem saudade.
Que triste é uma vida com saudade.

PS's:
  • Já não tenho caracóis, por mais discretos que fossem, o meu cabelo foi ceifado no outro dia.
  • Já que falas em caracóis um dia canto-te a música dos caracóis.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A chuva parou de cair, ou agora cai de mansinho.
Aqui fechada no armário pareço um caracol, muito enrolado à espera que o sol chegue. Irónico será dizer que nós caracóis gostamos de chuva e que nem por isso me dou ao trabalho de abrir a porta.
Gosto da chuva, mas gosto de a ouvir e olhar para ela a cair lá fora e a fazer música.
Pronto, está bem... eu não sou um caracol. Mas gostava de ser um.
- Um quê?
Um Caracol: um no teu cabelo. Assim podia passear contigo à chuva, ver o mesmo que tu e até podia ler-te mais facilmente os pensamentos: podia lê-los por osmose ou difusão facilitada. Toda eu podia ser chuva no teu cabelo, e depois escorregava-te na cara e não, eu não ia cair no chão. Antes disso tu ias agarrar-me, como quem limpa a cara farta de chuva. E eu regressaria ao teu cabelo quando o penteasses com as mãos: não fosse ficar o teu cabelo lambidinho de chuva e tu a fazer figura de pássaro enxarcado, sem asas, sem azul e sem céu porque esse está preenchido por nuvens.
E como eu sei que também gostas de chuva aproveito eu para te perguntar se posso gostar dela contigo e sair deste meu armário tão escuro.

sábado, 10 de setembro de 2011

Que voz doce.. Doce como o crepitar das chamas na lareira, no dia mais frio do Inverno. No dia que pelo menos cheira ao mais frio do Inverno, o Natal. Doce como o sol que raia numa manhã de Verão entre cheiros de pão fresco, relva acabada de cortar e maresia a entrar pela janela sem pedir licença.
Sai de bem perto do meu peito, mas não vem de mim. Vem do meu sonho. Que se deita sobre o meu peito, que oscila para cima e para baixo na suave ondulação da minha respiração. A doce voz foge, tal qual ladrão discreto e silencioso, por entre lábios carnalmente vermelhos, vermelhos do sangue que durante a última noite eu puxei em longos e profundos beijos.
Canta-me ao ouvido, como se o fizesse ao longo de anos e anos, tudo isto numa só manhã.
Diz-me que me ama. Pede-me mais uma noite. Pede-me mais uma manhã. Pede-me mais sexo. Pede-me mais amor. Pede-me mais, muito mais, beijos.
Eu dou. Mais uma noite. Mais uma manhã. Mais sexo. Mais amor. Mais, muito mais, beijos.
Recosto o cabeça na cabeceira da cama. No meu peito nu a voz doce recosta a dela e balança, manhã após manhã, embalada na ondulação da minha suave respiração.

C. também sonhas com coisas menos mortas? Coisas vivas.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Tenho que escrever antes que as ideias fujam e então o melhor é aproveitar a travadinha que chega de comboio até mim nesta primeira manhã setembrista.
Hoje não me apetece abrir a pestana. Era tão bom se pudéssemos viver com elas fechadas. A tempo inteiro elas seria uma loja fechada, uma empresa falida, sem dinheiro para pagar aos seus funcionários;
Olhos para que te quero?
Para nada, diria eu se nada fosse efectivamente a sua funcionalidade. O azar foi terem descoberto que eles são úteis para ver. De certo que nessa altura ainda não devia haver coisas feias que fazem mal a quem as vê.
Diz-me lá Vicente se não seríamos todos, ou pelo menos eu, mais bonitos de olhos caídos, cansados pela natureza do seu sal e do seu sol, pelo sono. E toda esta conversa para te dizer que preferia estar morta, branca, sem sangue. Que paz seria olhar para mim de olhos fechados, a dormir para sempre. Ou talvez não. Nunca fui uma pessoa de paz, mas também nunca me olhei ao espelho e pensei tu és guerra!. Para ser franca, acho que o meu reflexo nem faz pensar em nada.
E não, não estou a ouvir a mais deprimente de todas as músicas. Estou em silêncio, sem pássaros azuis lá fora; só lá ao fundo se escutam os sons da TV que por sinal não constitui uma boa música ambiente. E mais próximo, consigo ouvir a consciência a dizer vá, agora escreve que és uma manteigosa e nem sabes porquê e que tens medo de amanhã descobrires que vais ser mesmo aquilo de que tanto receio tens: uma entre tantas uma’s, que não fazem mais nada no mundo a não ser ocupar espaço e gastar o pouco oxigénio que ainda existe.
O português exige que haja uma ordem normal para o sujeito, verbo e predicado. Perceba se não que significa não que o estranho fica tudo ordem a trocarmos lhe se mas. Vicente, percebes me que diz.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Vai e vem

Vou contar-te uma história. História de gente grande esta:


Passava ali todos os dias o comboio. Várias vezes, a várias horas rigorosas. Pensava o pobre coitado que devia ser como o comboio. Passar. Passar. Passar. Ia e vinha. Sempre à mesma hora, sempre com o mesmo rigor. E nesta andança que dança o comboio, também ele queria dançar. 
Olhava sempre profundamente as janelas do comboio. Talvez lá dentro visse alguém. Um amor. Uma paixão. 
Perguntei-me ao saber disto, se era atrás dessa paixão que ele queria correr, afinal poderia ser esse o motivo do seu estranho desejo de ser como aquele comboio. 
Quem quer uma resposta procura-a através da pergunta. E assim fiz. Um dia entrei no tal comboio na estação mais próxima daquele lugar sagrado em que o pobre coitado via o desfile ferroviário. Quando estava quase a chegar abri a janela do comboio e mandei-lhe para cima o guardanapo amachucado que sobrava da minha torrada com manteiga - às tantas o pobre coitado ainda apanhou uma ou outra mancha de gordura quando levou com o guardanapo, afinal, para mim, torrada só é torrada se fizer natação na manteiga derretida.
Ele levantou o olhar - ainda não sei se pela suave pancada inesperada de um guardanapo, se por de facto ter ganho umas nódoas na camisa de linho que vestia naquele dia. Olhou para mim e eu, enquanto apontava freneticamente para a próxima estação gritava-lhe que corresse até lá. Que figura de parvo devo eu ter feito.
Mas o pobre coitada, depois de uma longa pausa desanimadora, desatou de correr, como se naquele momento ele fosse de facto como o comboio e ali caminhavam, corriam e voavam lado a lado.
Com um longo chiar desconcertante o comboio parou na estação. Saí e dirigi-me à ponta do cais, de encontro ao pobre coitado. Lá vinha ele, já esfalfado - quem consegue acompanhar um comboio? 
Permaneci por um tempo em silêncio para que ele pudesse recuperar o fôlego. E nem imaginas, este silêncio pareceu-me durar horas, porque ele ferrou em mim um olhar reprovador - eu era o parvo que o tinha feito correr ali por coisa de 4 minutos, como se não houvesse amanhã.
Quando já estávamos os dois mais confortáveis perguntei-lhe, assim a cru, sem rodeios nem floreados:
 - Podes explicar-me a mim, que já observei várias vezes o teu comportamento, o porquê desse teu desejo assumido, naquela placa que ostentas contigo quando observas o comboio? Aquela que diz: "Um dia vou ser como este comboio, para trás, para a frente, para sempre". Explicas-me porque queres ser como o comboio?
 - É mais simples do que possas imaginar. A ti - que era eu - explico-te que o meu verdadeiro desejo é de facto ser como o comboio e assim passar entre ti, entre ele, ele, ele e ela, entre ela, ele, ela e ele, entre eles - eu também me perdi no meio de tantos 'eles' - sabendo que voltarei a passar, noutro dia, a outra hora, sempre rigoroso e certo como tempo, para que nem tu, nem ele, ele, ele e ela, nem ela, ele, ela e ele, nem eles me possam esquecer. Porque ainda que gostem, não gostem ou não me conheçam não se possam esquecer de mim.

Sabes uma coisa, o pobre coitado no final desta história toda fui eu, que fiz figura de parvo.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Sim.

Eu disse Sim, eu aceito, como se de um pedido de casamento se tratasse. E era-o de facto. E casar-me contigo era casar-me com as tuas palavras, com tudo o que tinhas para dizer e que eu acreditava que não fosse pouco. Fossem elas simples ou complexas, eu queria aceitá-las e nem sempre compreendê-las. Queria dar-te uma resposta com direito a um troco que fosse na tua moeda, na que me davas: sei lá, tu podias dar-me euros e eu responder-te em libras ou em dólares. Falar dialectos diferentes sempre tornou as pessoas seres estranhos quando se olham tão fundo de frente; não que eu quisesse diluir todos os dialectos no mesmo recipiente e os tornasse um, não. Apenas queria que nos entendêssemos, mesmo quando em silêncio. A isto se pode chamar a cumplicidade. Se calhar, é por ela que chamo, é dela que procuro há tanto tempo quando não sei o que encontrar se não encontro nada.
Chamarão a isto um romance? Eu chamo-lhe amor, o que não implica necessariamente um romance como pano de fundo. Chamo-lhe amor, porque nem sei o que é o amor, mas sei que é o que guardo por ti. Mesmo se isto não é a coisa mais intensa que já senti em toda a minha vida, porque na realidade nem sei que coisas mais intensas já senti. Perderam-se muitas delas.
E Sim, eu aceito.

domingo, 14 de agosto de 2011

Tu:

"(...) Falar contigo um dialecto simplificado acho paradoxalmente (e usando palavras a que os meus avós chama de caras) complicado. Somos complicados e isso faz-nos parecidos. Somos loucos (...). Ou pelo menos temos momentos de loucura e desequilíbrio. (...)"

Deixo-te aqui a minha proposta. Que escrevamos de forma simples, mas complicada. Que sejamos arrojados e livres nas nossas palavras. Que partilhemos pensamentos. Que projectemos acções. Seremos mais assim. Se conseguirmos.

Queres tentar?
Queres aceitar este desafio?