segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Vai e vem

Vou contar-te uma história. História de gente grande esta:


Passava ali todos os dias o comboio. Várias vezes, a várias horas rigorosas. Pensava o pobre coitado que devia ser como o comboio. Passar. Passar. Passar. Ia e vinha. Sempre à mesma hora, sempre com o mesmo rigor. E nesta andança que dança o comboio, também ele queria dançar. 
Olhava sempre profundamente as janelas do comboio. Talvez lá dentro visse alguém. Um amor. Uma paixão. 
Perguntei-me ao saber disto, se era atrás dessa paixão que ele queria correr, afinal poderia ser esse o motivo do seu estranho desejo de ser como aquele comboio. 
Quem quer uma resposta procura-a através da pergunta. E assim fiz. Um dia entrei no tal comboio na estação mais próxima daquele lugar sagrado em que o pobre coitado via o desfile ferroviário. Quando estava quase a chegar abri a janela do comboio e mandei-lhe para cima o guardanapo amachucado que sobrava da minha torrada com manteiga - às tantas o pobre coitado ainda apanhou uma ou outra mancha de gordura quando levou com o guardanapo, afinal, para mim, torrada só é torrada se fizer natação na manteiga derretida.
Ele levantou o olhar - ainda não sei se pela suave pancada inesperada de um guardanapo, se por de facto ter ganho umas nódoas na camisa de linho que vestia naquele dia. Olhou para mim e eu, enquanto apontava freneticamente para a próxima estação gritava-lhe que corresse até lá. Que figura de parvo devo eu ter feito.
Mas o pobre coitada, depois de uma longa pausa desanimadora, desatou de correr, como se naquele momento ele fosse de facto como o comboio e ali caminhavam, corriam e voavam lado a lado.
Com um longo chiar desconcertante o comboio parou na estação. Saí e dirigi-me à ponta do cais, de encontro ao pobre coitado. Lá vinha ele, já esfalfado - quem consegue acompanhar um comboio? 
Permaneci por um tempo em silêncio para que ele pudesse recuperar o fôlego. E nem imaginas, este silêncio pareceu-me durar horas, porque ele ferrou em mim um olhar reprovador - eu era o parvo que o tinha feito correr ali por coisa de 4 minutos, como se não houvesse amanhã.
Quando já estávamos os dois mais confortáveis perguntei-lhe, assim a cru, sem rodeios nem floreados:
 - Podes explicar-me a mim, que já observei várias vezes o teu comportamento, o porquê desse teu desejo assumido, naquela placa que ostentas contigo quando observas o comboio? Aquela que diz: "Um dia vou ser como este comboio, para trás, para a frente, para sempre". Explicas-me porque queres ser como o comboio?
 - É mais simples do que possas imaginar. A ti - que era eu - explico-te que o meu verdadeiro desejo é de facto ser como o comboio e assim passar entre ti, entre ele, ele, ele e ela, entre ela, ele, ela e ele, entre eles - eu também me perdi no meio de tantos 'eles' - sabendo que voltarei a passar, noutro dia, a outra hora, sempre rigoroso e certo como tempo, para que nem tu, nem ele, ele, ele e ela, nem ela, ele, ela e ele, nem eles me possam esquecer. Porque ainda que gostem, não gostem ou não me conheçam não se possam esquecer de mim.

Sabes uma coisa, o pobre coitado no final desta história toda fui eu, que fiz figura de parvo.

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