Ora bem, da chuva. Gosto de a adivinhar ao lume. Logo desde pequeno me ensinaram a ver na lareira se ‘vem lá chuva’. Olho atentamente para o preto dos tijolos atrás das labaredas e vejo estrelas a brilhar, como se fossem formiguinhas luminosas no mais escuro e limpo céu de Inverno. Da chuva, gosto dela no Verão quando me bate a saudade. A saudade das mantas e meias grossas. A saudade das maçãs do rosto coradas de tão próximo estar do lume. Saudade da pele estalada e seca pelo calor excessivo a que me sujeito quando me sento no beirado da lareira.

Lume e saudade. Assim em modo de cliché posso dizer que são uma das misturas mais poderosas do mundo. Quente, ardente ou até explosiva. Simplesmente poderosa.
Se te sentares ao lume, comigo ou sem mim, vai iluminar esse teu armário com este conforto quentinho que é estar à lareira, com a família, com os amigos, a contar anedotas, a alcovitar, a comer, a beber, a ler um bom livro, a ver um bom filme ou simplesmente a pensar, ao som de uma bom música ou do teu bom silêncio.
Ai, a Saudade..
Sabes, para mim a saudade é das coisas mais bonitas e paradoxalmente a mais triste. Atenção que face a beleza da saudade apresento-te a sua tristeza, porque feia.. Ah, feia é que a saudade não é. Saudade, saudade, saudade. Saudade. Acho que estou apaixonado. Pela saudade. O prodígio da boa e bela Língua Portuguesa. Será que nas outras tantas línguas que por aí existem, naquelas em que não há tradução para saudade eles sabem o que significa? Pergunto-me, pergunto-te, será que eles por lá já a sentiram.
Que tristeza seria uma vida sem saudade.
Que triste é uma vida com saudade.
PS's:
- Já não tenho caracóis, por mais discretos que fossem, o meu cabelo foi ceifado no outro dia.
- Já que falas em caracóis um dia canto-te a música dos caracóis.